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Ecoturismo cresce e observação de aves já é alternativa de atividade em diversas RPPNs

POR – CRISTINA RAPPA, DA CRÍVEL COMUNICAÇÃO, PARA NEO MONDO

Esqueça a imagem do gringo de cabelos brancos, com jeito de cientista, vestindo roupas camufladas e portando binóculo
no meio do mato. A atividade de birdwatching – expressão em inglês para observação de aves – popularizou-se nos
últimos anos no Brasil e já cativa pessoas de diversos locais. O WikiAves, uma enciclopédia eletrônica de aves brasileiras,
registra neste fevereiro mais de 28.500 usuários, ou seja, observadores. De olho neste mercado que cresce, diversas
empresas de turismo ecológico ou rural já se estruturam para oferecer o programa entre suas atividades.

Um dos resorts de turismo ecológico que mais se destacam na observação de aves é o Cristalino Lodge, em Alta Floresta,
no norte do Mato Grosso, já em bioma amazônico.

Em parte por se localizar na Amazônia, parte pelo estado de preservação em que se encontra a Reserva Particular do
Patrimônio Natural –
RPPN Cristalino, que abriga o hotel, o fato é que já foram registradas no local nada menos do que cerca
de 600 espécies de aves, quase um terço das 1919 encontradas oficialmente no Brasil.

“No início da década de 90, recebemos o primeiro birdwatcher, Ted Parker, um exímio conhecedor das aves e da natureza.
Quando chegou lá, ficou encantado com a quantidade de aves e começou a divulgar o Cristalino, que logo ficou
famoso na comunidade de aves”, conta Alex da Riva, sócio-gerente do resort que começou como um pequeno acampamento
nessa época e hoje é considerado um dos melhores “eco resorts” do mundo pela National Geographic.

 
 

“Desde então, recebemos todos os anos centenas de pessoas que vêm observar as aves – o turismo mais limpo e
eticamente responsável que pode existir”, completa, enumerando algumas das aves locais, como garça-real,
araras vermelha e Canindé, harpia ou gavião-real, e sete-cores-da-amazônia.

A RPPN, que ocupa uma área de 11.400 hectares, foi criada em 1997, e fica ao lado do Parque Estadual do Cristalino,
de 184.900 ha, sendo cortada pelo rio de mesmo nome, um afluente do Teles Pires.

Trata-se de uma floresta primária intocável, com árvores de 800 anos de idade. De acordo com Riva, a família proprietária,
da qual ele é a segunda geração, buscou, desde o início realizar o turismo ecológico. “A ideia era ter um negócio e, ao mesmo
tempo, manter a floresta em pé”, afirma, informando que toda a área é destinada à preservação. “A satisfação de preservar não
tem preço. Seus filhos poderão ver as mesmas coisas que viveu quando você era pequeno”, diz.

 
 

Bonito

Se há um local com turismo ecológico bem estruturado no Brasil, esse lugar é Bonito, no Mato Grosso do Sul. E os
passeios – trilhas com banhos de cachoeira, cavalgadas, flutuações em rios de água cristalina e observação de fauna,
entre outros – são oferecidos em propriedades rurais que destinaram parte de sua área para a preservação, criando RPPNs.

A Estância Mimosa Ecoturismo é uma delas. A fazenda, de 423 ha, nas margens do rio Mimosa, na Serra do Bodoquena,
foi comprada em 1999 e, desde o início já existia a intenção de transformar parte da área (271,6 ha) em RPPN, conta a
engenheira ambiental Luiza Coelho, que é filha dos proprietários e diretora de sustentabilidade do Grupo Rio da Prata, do
qual faz parte a Estância, entre outros empreendimentos.

 

Cardume de peixes
Por: André Turatti

 

A RPPN foi criada oficialmente pelo órgão ambiental IMASUL/MS em fevereiro de 2013; dos 271,6 hectares protegidos,
em torno de 210 são de cobertura florestal densa, sendo o resto de cerrado ralo e capim nativo em recuperação.
“A satisfação pessoal de saber que uma área será preservada perpetuamente é imensa”, diz Luiza

Na Mimosa, os cerca de 17 mil visitantes anuais avistam aves com guia especializado, fazem trilhas, tomam banho de
cachoeira ou fazem cavalgadas, entre outras atividades.

Entre as aves, araras-azuis-grandes, surucuás, tiribas-fogo, bandoletas, mutuns-de-penacho e batuqueiros.

A Estância mantém ainda 60 cabeças de gado e algumas vacas leiteiras, para uso interno da fazenda, para a refeição dos
visitantes e para “não deixar o capim nativo pegar fogo”.

 

Pyrruha
Por: Maurício Neves Godoi

 

Buraco das Araras

O nome já diz tudo, mas nem sempre foi um local ecológico e, por isso, afugentou as primeiras araras que lá viviam.

O Buraco das Araras é uma formação geológica conhecida como dolina, oriunda do desmoronamento do teto de uma
caverna formada há cerca de 10 milhões de anos. Há uns 300 mil anos, a água acabou secando e o teto da caverna
desmoronou, dando origem à formação atual, com cerca de 100 metros de profundidade, 160 m de diâmetro e 500 m
de circunferência.

Durante anos o Buraco das Araras foi utilizado para fins não recomendáveis, como descarte de lixo, de veículos roubados
e até mesmo de ossadas humanas,  o que acabou espantando as araras e demais aves que lá viviam e nidificavam.
Em 1986, Modesto Sampaio, o Seu Modesto, sul-mato-grossense que cresceu na lida do gado, mudou-se para o município
de Jardim/MS, na região de Bonito, encantou-se pelo lugar, adquiriu a fazenda Alegria, de 100 ha, onde ficava o Buraco
e decidiu restaurar o local.

 
 

Inicialmente, seu Modesto pensava em apenas criar gado, atividade tradicional da família, na fazenda, mas, com o passar
do tempo, decidiu abandonar a pecuária e investir na preservação ambiental e no turismo ecológico. Em 2007, 29 hectares
ao redor da área da dolina foram reconhecidos como uma RPPN – a RPPN Buraco das Araras – garantindo assim, a proteção
perpétua do local.

Quando o projeto de restauração da mata começou,  seu Modesto reintroduziu dois casais de araras-vermelhas-grandes
(Ara chloropterus) e outras aves no local, que foram se reproduzindo e ainda atraindo mais fauna.

“Hoje, elas utilizam o local para reprodução e também para ensinar aos filhotes como viverem em ambiente natural, uma
vez que com a criação da RPPN, elas passaram a contar com uma proteção extra para viverem tranquilamente aqui. Valeu
muito à pena todo o investimento em preservação!”, afirma Seu Modesto.

Com o tempo, o local foi atraindo turistas e hoje recebe cerca de 22 mil pessoas por ano, entre visitantes de trilha
contemplativa e também de fotografia e observação de aves. E esse público só vem crescendo a cada ano mais.

 
 

Na mata atlântica

Abrir as porteiras da sua RPPN para a comunidade pode ser uma boa alternativa para mantê-la. Se em locais
turísticos tradicionais como Bonito, isso já é uma realidade, com os fazendeiros destinando parte de sua área
para a exploração do ecoturismo e, com isso, ajudar a bancar os custos da propriedade e ainda conservar o ambiente,
maior patrimônio da região, a prática já começa a ser adotada em outras regiões. Como é o caso do Parque das Neblinas,
reserva de 6,1 mil hectares nos municípios paulistas de Mogi das Cruzes e Bertioga, em plena Serra do Mar, no bioma
mata atlântica.

A área da reserva já foi dominada pelo cultivo de eucaliptos e foi muito degradada nos anos 1940 e 50, com a retirada
das árvores para a produção de carvão para uso em uma siderurgia. Nos anos 60, foi adquirida pela Suzano Papel e
Celulose, que passou a explorar o eucalipto existente na região para a produção de celulose e, em 1988,

inicia um plano de manejo visando sua recuperação e adequação ao Código Florestal vigente na época.

Em 1997, parte da área (1.300 ha) é transformada em reserva. O Parque das Neblinas, inaugurado em 2004 já com
2.800 ha, ganhou nova área da Suzano em 2013, chegando aos atuais 6.100 ha, dos quais 518 são uma RPPN.

Quem resgata a história é o engenheiro florestal Paulo Groke, diretor de Sustentabilidade do Instituto Ecofuturo, ONG
criada em 1999 nas comemorações dos 75 anos da Suzano e responsável pelo gerenciamento da reserva, Ele coloca em
números os recursos naturais do lugar: 400 nascentes, 243 espécies de aves, 315 de árvores, 59 de anfíbios, 35 de
mamíferos e 96 orquídeas. “Na área ainda foram realizados 58 trabalhos científicos”, diz.

 
 

O diretor da Ecofuturo explica que, quando da oficialização da criação do parque, em 2004, foi iniciado uma projeto
de reintrodução de sementes de juçara, palmeira de onde é retirado o palmito, ameaçada e fundamental para
garantir a sobrevivência de inúmeras espécies de animais durante o período em que a mata tem menos alimento
disponível, como no inverno.

Como a educação ambiental e a sensibilização da comunidade são importantes para a conservação do bioma, a
Ecofuturo lançou na época um programa de visitas ao parque, que desde então recebe estudantes, pesquisadores e
pessoas que querem passear, pesquisar e passar um dia na natureza, aproveitando o que restou da mata atlântica
brasileira. Entre as atividades que o parque oferece estão:

canoagem no rio Itatinga, que corta a reserva e possui corredeiras, passeios de bicicleta, trilhas autoguiadas ou
monitoradas a pé, banhos de cachoeira, camping e agora, birdwatching.

Das mais de 200 espécies de aves que podem ser avistadas no Parque, 25 ocorrem apenas na mata atlântica,
como a ameaçada jacutinga.

Um dos objetivos do programa é que o Parque ajude a desenvolver a comunidade local e que ela passe a valorizar
e preservar mais o ambiente. Por isso, além dos funcionários, os monitores que atuam no parque são moradores
do distrito próximo de Taiaçupeba, ou seja, conhecem muito bem a região e se beneficiam da criação da reserva.

 
 

Azeite e soltura de aves na Mantiqueira

A Fazenda do Meio, cujo nome teve inspiração no Budismo, localizada em Aiuroca/MG, em plena
Serra da Mantiqueira, uniu agricultura sustentável, reflorestamento, produção de azeites artesanais
e de azeitonas em conserva e pasta e, ainda, reabilitação de aves.

Tudo começou com os planos do mineiro de Juiz de Fora e morador de São Paulo Nélio Weiss ter uma
casa de campo para desfrutar nos finais de semana. Comprou 3 hectares, que estavam bastante degradados
pela ação de queimadas e pastagens e onde começou a plantar árvores, em 1999. “Era um absurdo dirigir
400 km da minha casa, em São Paulo, e ir para um local desmatado. Comecei a reflorestar e foi quando percebi
que as árvores atraiam pássaros”, lembra Weiss, contando que, aos poucos, foi comprando mais terras e
ampliando o trabalho de restauração da biodiversidade da fazenda.

Hoje a propriedade possui área total de 92 ha, dos quais 33 são de floresta, e, desses, 18 são de mata nativa.
“Como observei que a propriedade estava atraindo aves, pensei em reintroduzir pássaros na natureza e apresentei
um projeto ao Ibama”, conta. Aprovado em 2007 pelo órgão ambiental, o projeto já libertou na mata mais de
3 mil aves, apreendidas do tráfico ou de maus tratos pelo próprio Ibama ou pela Polícia Florestal.

A fazenda ainda abriga um mantenedouro científico de fauna silvestre, em especial de Psitacídeos e Ramphastideos,
ou seja de aves da família dos papagaios, araras e periquitos, no primeiro caso, e de tucanos.

Para manter a propriedade e as aves e tornar a propriedade autossustentável, Weiss já cultivou arroz, feijão e milho,
mas buscava uma cultura permanente. Foi aí que soube de um trabalho com olivicultura na região. Em 2011, iniciou
em 14 ha o plantio de oliveiras, que começaram a produzir em escala comercial seis anos mais tarde.

Neste ano, a Fazenda Caminho do Meio produziu 800 litros de azeite e 200 kg de azeitona em conserva e em pasta,
que estão sendo comercializados com a marca Olibi.

“Acho que faço minha parte com a natureza. As aves têm efeito polinizador e dispersor de sementes de inúmeras
espécies de plantas; mas não para as oliveiras”, completa rindo e informando que as atividades lhe renderam o
Prêmio Eco 2017 de Sustentabilidade, da Amcham, a câmara de comércio americana, na categoria Pequenas Empresas.

 

Ecoturismo e RPPNs

Não só a observação de aves, mas o ecoturismo em geral vem crescendo 20% a cada ano no Brasil, tendo atingido
8,29 milhões de visitantes em 2016, segundo o Ministério do Turismo. E ganhou um dia comemorativo: 1º de março,
quando é celebrado o Dia Nacional do Turismo Ecológico.

A atividade consiste na visita ou prática esportiva em lugares de preservação de fauna e flora, como as
Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), que são Unidades de Conservação particulares transformadas em
área de preservação permanente de forma voluntária pelo proprietário, que permanece como administrador da área protegida.

Para sua criação, o processo e o plano de manejo da área a ser transformada em RPPN têm que ser aprovados pelo
órgão ambiental competente, estadual ou federal. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 510 mil hectares protegidos dessa forma.

Atividades de ecoturismo e de educação ambiental previstas no plano de manejo e que não comprometam a fauna
e a flora locais podem ser exercidas em uma RPPN, que conta com alguns benefícios, como a isenção do
Imposto Territorial Rural – ITR referente à área protegida.

 

 


PUBLICADA EM: 09/04/2018 10:30:34 | VOLTAR PARA Artigos | OUTRAS PUBLICAÇÕES
FONTE: http://www.revistaneomondo.com.br/


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